Meu dia, do nascer ao pôr do sol, é regulamentar:
fluxo e refluxo do mar.
Já não sei passear a vida
(e a brisa no rosto) de bicicleta.
Sou poeta, mas tropeço no ritmo das palavras.
Tenho meu próprio tempo,
restrito, em ordem.
Sou o cara por trás do rosto barbado,
das polaroids, das fitas VHS:
um sonho engaiolado, rebobinando.
Quero ser valente, mas o que sou é todo mundo,
sem fundo de garantia.
Um silêncio revelado em laboratório
(quarto escuro);
o reflexo da imagem é meu território.
O maior adormecimento que conheço
é sonhar com minha mãe.
Acompanho-a em tudo:
na universidade, no armarinho, nos livros,
na feira, no cheiro da cozinha,
no cultivo das plantas.
Minha mãe sabe que eu choro.
Foi ela quem me levou a um canto silencioso da casa
e disse, terminante:
“De agora em diante, cuide da respiração”.
Entre angústias e lirismos,
projetos intermináveis, planos emperrados,
palavras em revisão, um livro em atraso
e a anatomia incompleta da razão,
algumas circunstâncias resistem
(o dia, por assim dizer).
Sento, almoço, pondero, anoto,
deliro na caligrafia
(ainda escrevo à mão).
O perfume da escrita sempre impregnou a casa:
livros na estante, fichários de receitas,
álbuns de fotografia, máquinas da escola de datilografia.
Algo mítico ali se articulava.
Teclas batiam sozinhas, cadeiras deslizavam,
como se o ar aprendesse a escrever.
O som das teclas no papel,
o braço metálico de margem a margem,
o rolo conduzindo a folha,
as letras tingidas no branco —
um orvalho que me inebria.
Se bem conheço as reações do meu corpo,
devo estar entre a brisa
e a umidade das memórias.
Devo apanhar uma tempestade no caminho
e estancar sob uma marquise.
Abro uma revista molhada de chuva
(título: “como domar sua mente”),
passo marcador em linhas dignas de nota.
Numa delas, um escrito sobre esquecimentos,
enganos dos sentidos e outros lamentos coletivos.
Noutra, um trecho de algo que Ferreira Gullar ditou
(questão de vida ou morte).
Os pensamentos me atravessam, escrevo às escondidas
cultivando segredos para a vida inteira.
Sou solitário —
a solidão me ensina a escutar.
Não tomei aulas de direção, só aprendi a caminhar.
Vejo além das necessidades
e das canções do Pet Shop Boys.
Escrever é, portanto, torrencial.
Mas minha habilidade em bem viver dias santos
vai além de outros tantos.
Escrevo no verso das provas,
em guardanapos de bares,
nas pistas de dança —
uma força invisível que move o que faço.
Entre, Parênteses, pela porta lateral
da minha experiência de mundo
(logo depois do vão, do vazio profundo).
E aqui, ditados como dois traços em curva,
meus dias seguem tardios, escritos à parte.
Será poesia
(ou arte)?
Marco Jardim
