DENÚNCIA | Funcionários de fábrica de calçados na Bahia denunciam riscos à saúde

Funcionários da fábrica Calçados Pegada, localizada na cidade de Castro Alves, no Recôncavo Baiano, denunciam que são expostos a trabalhar com produtos químicos sem proteção adequada. Os empregados, que preferem não se identificar, relataram que são disponibilizados, por parte da empresa, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) errados, “colocando a vida de muitas pessoas em risco”. Ainda de acordo com os trabalhadores, os líderes da empresa “fazem pouco caso”, e até os jovens aprendizes da companhia precisam lidar com produtos químicos com proteção irregular.

657582d1-9bb3-42dd-b369-1a070567bae9Foto: Leitor/Aratu On


Um dos materiais manejados pelos funcionários sem a devida proteção é um primer halogenante para calçados, fornecido pela Killing S.A. Tintas e Adesivos. O produto é usado para limpar e preparar superfícies para colagem de componentes em calçados e outros objetos.

Na ficha de informações de segurança da fabricante há um alerta de perigo: o mau uso do artefato, classificado como um líquido altamente inflamável, pode causar “lesões oculares graves” e “irritação ocular”, “toxicidade para órgãos-alvo específicos”, e “perigo ao ambiente aquático”, além de poder provocar sonolência ou vertigem.

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O Aratu On também teve acesso à ficha de segurança do “promotor de adesão para EVA“, utilizado na Calçados Pegada, que serve para melhorar a adesão em superfícies de EVA, plásticos e borrachas. Ele também é fornecido pela Killing S.A. Tintas e Adesivos. No documento, são apontados os seguintes riscos à saúde: corrosão ou irritação à pele, lesões oculares graves e irritação ocular, toxicidade dérmica aguda, toxicidade para órgãos-alvo específicos e sensibilização à pele.

Além disso, o produto, que também é “altamente inflamável”, é cronicamente “perigoso ao ambiente aquático”.

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Para manusear os produtos citados acima, segundo a ficha de segurança elaborada pela Killing S.A. Tintas e Adesivos, é necessário usar luvas de proteção, roupa de proteção, proteção ocular e proteção facial.

Mas, mesmo trabalhando com materiais nocivos à saúde e inflamáveis, os empregados, segundo relatos e imagens enviadas pelos denunciantes, usam apenas luva e máscara cirúrgica, responsáveis por evitar a contaminação da boca e do nariz por gotículas respiratórias. Além da máscara não ser suficiente para executar o serviço de risco, o equipamento deveria ser trocado todos os dias – mas, como contam os colaboradores, eles só recebem uma nova duas vezes por semana.

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O correto é trocar a máscara todos os dias. | Foto: Leitor/Aratu On

A situação foi denunciada em fevereiro deste ano ao Técnico de Segurança da empresa, que não resolveu o problema, como disse um operário: “Nada foi feito, é sempre a mesma coisa. Disse que a máscara é essa e pronto”.

“A algumas pessoas eles dão máscaras melhores e outros EPIs, como óculos. Mas, a maioria das pessoas está trabalhando de forma irregular. Bem poucas pessoas ganham equipamentos próprios para isso [o trabalho]. Se você não reivindicar ou se o funcionário não for lá buscar, eles não dão. Acham que essa máscara é suficiente”, detalhou.

O Aratu On entrou em contato com a Calçados Pegada e questionou a posição da empresa frente à denúncia, mas, até a publicação desta matéria, não recebeu resposta. O material será atualizado assim que houver retorno.

Essa não é a primeira vez que funcionários denunciam a Calçados Pegada. Em maio do ano passado, um grupo de trabalhadores fez um protesto em frente à fábrica, em Castro Alves, por conta de desacordos salariais.  Na época, a mobilização foi apoiada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Setor de Calçados (Sintracal).

e6a08c15-3dce-426d-9744-107720a5a0ccEm maio do ano passado, um grupo de trabalhadores fez um protesto em frente à fábrica. | Foto: Blog do Valente

O uso de Equipamentos de Proteção Individual é obrigatório quando há riscos à saúde e segurança no ambiente de trabalho. A obrigatoriedade é definida pela Norma Regulamentadora nº 6 (NR-6) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em portaria publicada em 1983.


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